BRASÍLIA - A indústria do panetone deve se preparar. Começou a circular pela internet uma grande campanha de boicote ao produto no Distrito Federal. A iniciativa é uma sátira à afirmação do governador José Roberto Arruda (DEM) de que os R$ 50 mil que recebeu de um suposto esquema de pagamento a integrantes do Governo do Distrito Federal era para comprar panetones. O dinheiro seria suficiente para abastecer o Varjão, uma das regiões administrativas mais carentes do DF, com mais de 12 mil panetones, iguaria originária do Norte da Itália e tradicionalmente consumida no Natal brasileiro. Pedacinhos do pão natalino são oferecidos desde segunda-feira por manifestantes vestidos de palhaços em frente à residência oficial do governo.
A hotelaria brasiliense também deve se preparar: um parlamentar já comentou nos corredores do Congresso Nacional que militantes aliados de Joaquim Roriz, ex-governador do DF, planejam se hospedar em alguns dos hotéis do vice-governador do DF, Paulo Octávio, também citado no suposto esquema, e sair sem pagar a conta. Pelo menos três hotéis estão no alvo. Todas as reações seriam cômicas, não fossem reais, trágicas e resultado de um dos mais viscerais e bem documentados escândalos da política nacional.
O esquema, desbaratado pela Polícia Federal na última sexta-feira, está registrado em mais de 30 vídeos gravados pelo ex-secretário de Relações Institucionais do DF, Durval Barbosa, beneficiado pela delação premiada. A cada dia novos vídeos da investigação são postados na web. Nas imagens, maços de dinheiro são recebidos e guardados nos lugares mais inusitados, como meias e cuecas. Nem tão inusitados assim. De novidade, só as meias. Afinal, a moda da cueca-cofre foi lançada há quatro anos por um dos envolvidos no mensalão do PT, José Adalberto Vieira da Silva, preso no aeroporto de Congonhas com R$ 200 mil e US$ 100 mil na cueca.
Quase tão pitorescas quanto os vídeos são as explicações, que não param nos panetones. O presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente (DEM), explicou em coletiva que colocou o dinheiro na meia porque não tinha pasta. O fato de que era, segundo ele mesmo, recursos não contabilizados para o financiamento de despesas eleitorais, o famoso caixa-dois, virou detalhe.
Gratidão
“Pai, somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de benção para nossas vidas, para esta cidade. Nós precisamos da tua cobertura e dessa tua graça, da tua sabedoria, de pessoas que tenham, senhor, armas para nos ajudar nesta guerra”. Este é apenas um trecho da oração de agradecimento feita pelo deputado distrital Rubens César Brunelli (PSC), e por Prudente, ao serem “abençoados” por Durval, o delator, com promessas.
O vídeo, que beira o surrealismo, como destaca o deputado federal do PSOL, Chico Alencar, já virou piada. O próprio Alencar, inspirado pelas imagens pitorescas, criou uma paródia do “Pai nosso” para os corruptos, e foi com ela que abriu terça-feira, em Brasília, a reunião da campanha Ficha Limpa, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB):
“Venha a nós o vosso dinheiro. Seja feita a nossa vontade assim no público como no privado. A propina nossa de cada dia nos dai hoje. Perdoai os nossos desfalques e não nos deixei cair na tentação da honestidade. Nos livrai do flagrante e da verdade, amém”.
– É o espírito brasileiro de brincar. Mas os fatos são dramáticos. Uma corrupção exaustivamente documentada – detona Alencar.
Imagens
Cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo Barreto acredita que, independentemente de futuras ações judiciais, Arruda e seus aliados já foram julgados, porque o que vale são as imagens, “fruto do amadorismo dessa gangue que se apoderou do DF”. Nem todos, no entanto, são adeptos do provérbio chinês que uma imagem vale mais do que mil palavras, como Barreto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ser um desses. Orações, meias e cuecas não surpreenderam o presidente, para quem “as imagens não valem por si só”.
Partidos aliados já abandonaram o governo Arruda, pedidos de impeachment já foram protocolados, mas a declaração do presidente Lula e o recuo do DEM, que deu oito dias para o governador explicar a situação, sinalizam que, mais uma vez, um escândalo político pode terminar em pizza. Ou melhor, em panetone. E viva a Itália!
DEM dá mais oito dias para Arruda se defender
Reunida durante a tarde de terça-feira, a Executiva Nacional do DEM decidiu apenas abrir processo disciplinar contra o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), suspeito de participar de um esquema de corrupção que envolveria a distribuição de dinheiro para políticos do governo e da base aliada. A decisão, liderada pelo presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), frustrou parte dos dirigentes da legenda que defendiam a expulsão sumária de Arruda.
O processo disciplinar ainda pode resultar na expulsão do governador do partido, mas pode também se transformar em uma pena mais branda, como uma mera advertência ou suspensão temporária. Dividido, o DEM decidiu dar oito dias de prazo para Arruda se defender. Também haverá dois dias para elaboração do relatório. O partido marcou para o dia 10 o julgamento do processo aberto contra o governador. O grupo de parlamentares liderados por Demóstenes Torres (GO), José Agripino (RN) e o deputado Ronaldo Caiado (GO) pediram a expulsão imediata de Arruda, mas foram voto vencido no encontro.
– A decisão do partido é a de tomar uma decisão o mais rápido possível. Se garante oito dias, que é o mínimo que garante o estatuto do partido para defesa do governador nesse processo disciplinar e, na quinta-feira, dia 10, o partido vai definir sua posição em relação ao processo do governador Arruda – contemporizou Maia. O escolhido para fazer o relatório do processo foi o deputado José Carlos Machado (SE), mas o parlamentar renunciou ao posto meia hora depois de aceitá-lo. Segundo Machado, lhe faltam os conhecimentos jurídicos necessários para analisar o caso. O DEM escolheria um substituto ainda na noite de terça-feira.
Arruda divulgou terça-feira nova nota prometendo apresentar “provas irrefutáveis de sua inocência” e de que teria sido vítima de um “complô urdido por um homem que tem mais de 30 processos por corrupção”, em referência ao ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, que denunciou o suposto esquema de corrupção no governo. O governador também negou que na reunião com a direção do Democratas tenha pressionado a legenda contra sua expulsão. “Ao contrário de versões maldosas veiculadas em alguns veículos de comunicação, a reunião transcorreu em um clima de elegância e respeito mútuo, sem nenhum tipo de pressão. O que o governador do DF pediu foi que o partido desse a ele amplo direito de defesa, respeitando os prazos estatutários”, diz o documento divulgado pela assessoria de Arruda. O governador diz ainda que confia na “decisão serena do partido” e que “respeitará seja ela qual for”.
O vice-governador do Distrito Federal, Paulo Octávio (DEM), também divulgou nota terça-feira em que nega envolvimento com o suposto esquema de distribuição de dinheiro a integrantes do governo e parlamentares da base aliada. O vice-governador é citado em gravações como um dos beneficiários do suposto esquema.
Na nota, Paulo Octávio diz que “não autorizou em nenhum momento, seja na campanha, seja durante o governo, que qualquer secretário, assessor, funcionário público ou empresário falasse em seu nome, na qualidade de representante ou procurador”. O vice-governador também afirma que “jamais autorizou a absolutamente ninguém que recebesse, solicitasse ou exigisse dinheiro ou qualquer outra vantagem em seu benefício.”
Cerca de 100 pessoas protestaram, terça-feira, em frente à residência oficial do governador Arruda. A manifestação foi pacífica, mas a Polícia Militar teve que conter a pequena concentração de pessoas que fecharam durante vários momentos a via que passa em frente ao local dos protestos. Como a polícia isolou a área em frente à casa do governador, sob a alegação de que o trecho está em obras, os manifestantes tiveram que se reunir do outro lado da pista.
A concentração, que teve início no final da manhã, reuniu militantes do PSOL e do PT, além de servidores públicos e integrantes de movimentos estudantis e sindicais do DF. Os manifestantes empunharam faixas e bandeiras, distribuíram panfletos e gritaram palavras de ordem exigindo o impeachment de Arruda, Paulo Octávio, além do afastamento dos deputados distritais acusados de envolvimento com o esquema.
Panetones, meias, cuecas e réplicas de maços de dinheiro foram oferecidos aos motoristas que passam no local, em referência às imagens gravadas pela Operação Caixa de Pandora, em que integrantes do alto escalão do governo local e empresários do DF aparecem recebendo maços de dinheiro e à justificativa apresentada por Arruda de que o dinheiro recebido por ele era para a compra de panetones que seriam dados à população de baixa renda. (Com agências)